Percentual entre estudantes de 13 a 17 anos em Minas passou de 22,1% para 28,3%; caso em Contagem reforça debate sobre segurança escolar.
Quase três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos em Minas Gerais relatam já ter sofrido bullying no ambiente escolar. O percentual chegou a 28,3% em 2024, contra 22,1% em 2019, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, citados em reportagem publicada nesta semana. O avanço representa um sinal de alerta para famílias, escolas e autoridades responsáveis pelas políticas de proteção de crianças e adolescentes.
O assunto voltou ao centro das discussões em Minas após a família de um adolescente de 15 anos, de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, denunciar uma sequência de episódios envolvendo bullying e agressões. Segundo o relato familiar, o estudante precisou se afastar das aulas presenciais e passou a acompanhar as atividades escolares em casa. O caso individual está sob versões das partes envolvidas e não deve ser usado para generalizar a situação das escolas mineiras, mas ajuda a dimensionar as consequências que episódios de violência podem provocar.
Bullying cresce entre estudantes mineiros e chega a 28,3%
Os dados mostram uma mudança significativa em Minas Gerais. Em 2019, 22,1% dos estudantes mineiros entre 13 e 17 anos relatavam ter sofrido bullying. Em 2024, o indicador alcançou 28,3%. Isso representa uma elevação de 6,2 pontos percentuais no intervalo considerado.
O problema, porém, ultrapassa as fronteiras de Minas. No Brasil, 39,8% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sofrido bullying na escola. Entre as meninas, o percentual chega a 43,3%, evidenciando como a violência e a intimidação entre estudantes atingem parcela expressiva dos adolescentes.
A aparência física aparece entre os fatores relacionados aos episódios relatados. Segundo os dados apresentados na reportagem, 30,2% apontaram a aparência do rosto ou do cabelo como motivo. Ao mesmo tempo, 13,7% dos estudantes disseram já ter praticado bullying contra outros colegas.
Os indicadores ajudam a mostrar que o problema não deve ser interpretado simplesmente como uma brincadeira entre estudantes. Bullying envolve comportamentos repetitivos de intimidação, humilhação ou agressão e pode assumir diferentes formas, incluindo ataques verbais, violência física, exclusão social e constrangimentos.
Existe ainda uma diferença entre um conflito isolado e uma situação persistente de bullying. Desentendimentos podem ocorrer durante a convivência escolar, mas a repetição das agressões, a intenção de intimidar e o desequilíbrio de poder entre os envolvidos estão entre os elementos importantes para identificar o problema.
A violência física também aparece nas estatísticas nacionais. 16,6% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos afirmaram já ter sido agredidos fisicamente por colegas, contra 14% em 2019. Entre aqueles que relataram agressões em duas ou mais ocasiões, o indicador passou de 6,5% para 9,6%.
Caso em Contagem reforça debate sobre segurança dentro das escolas
O assunto ganhou repercussão em Minas após a denúncia apresentada pela família de um adolescente de 15 anos que estuda em uma instituição particular de Contagem. De acordo com a mãe, os problemas envolvendo colegas começaram meses atrás e incluíram episódios de agressão.
Segundo a família, o primeiro episódio denunciado ocorreu em 25 de maio. A mãe afirma que uma situação envolvendo estudantes terminou em violência e provocou ferimentos no adolescente. Ele ficou afastado por aproximadamente 45 dias e precisou passar por recuperação.
O estudante retornou posteriormente às atividades escolares, mas a família afirma que os problemas continuaram. Em agosto, outro episódio teria ocorrido durante uma partida de futebol no intervalo. Segundo o relato apresentado pela mãe e registrado em boletim de ocorrência, o adolescente voltou a sofrer uma lesão no joelho.
Atualmente, segundo a reportagem, o jovem realiza fisioterapia em casa e recebe conteúdos escolares de forma remota. A família também relata consequências emocionais associadas aos episódios e dificuldade para que o adolescente retorne presencialmente ao ambiente escolar.
A instituição de ensino apresentou sua versão sobre os acontecimentos. O SESI-MG informou que mantém diálogo com as famílias e que adotou medidas disciplinares e pedagógicas consideradas cabíveis após tomar conhecimento dos episódios.
Sobre o primeiro caso, a instituição afirmou que a ocorrência aconteceu fora do ambiente escolar, embora envolvesse estudantes da unidade. Segundo o SESI, foram realizadas reuniões com as famílias e houve acompanhamento do aluno durante seu período de afastamento.
Em relação ao episódio posterior, a escola informou que o estudante sofreu uma lesão durante uma atividade esportiva realizada no intervalo. A instituição afirmou que prestou atendimento, acompanhou a situação e manteve contato com a família. Durante o afastamento, os conteúdos das aulas teriam sido disponibilizados para que o estudante continuasse as atividades.
A divergência entre a interpretação da família e a posição da instituição mostra também a importância de protocolos claros para investigar episódios envolvendo estudantes. A apuração precisa considerar os relatos das partes, registros existentes e o contexto de cada ocorrência, evitando tanto a minimização da violência quanto conclusões precipitadas.
O que famílias e escolas podem fazer diante do bullying?
A prevenção começa pela identificação dos sinais. Mudanças repentinas de comportamento, resistência em frequentar a escola, queda no rendimento, isolamento, perda de interesse por atividades habituais ou medo relacionado a determinados colegas podem indicar que algo está acontecendo. Nenhum desses sinais isoladamente comprova a existência de bullying, mas eles podem justificar uma conversa cuidadosa com o estudante.
As escolas também possuem papel central. Supervisão dos espaços de convivência, canais seguros de comunicação, capacitação dos profissionais e protocolos para registrar e investigar denúncias ajudam a reduzir o risco de episódios permanecerem invisíveis.
A psicopedagoga ouvida pela reportagem ressalta que responsáveis pelos estudantes envolvidos precisam participar do processo. A atuação não deve se limitar à vítima: famílias dos demais alunos envolvidos também precisam ser comunicadas para que medidas educativas e de proteção sejam adotadas.
Quando uma família entende que a escola não tomou providências adequadas diante de uma situação grave, também pode buscar orientação dos órgãos competentes. Dependendo das circunstâncias, Conselho Tutelar, Ministério Público e autoridades policiais podem integrar a rede de proteção.
O cuidado precisa incluir ainda o estudante que sofreu a violência. A interrupção do episódio é apenas uma parte da resposta. Dependendo das consequências, pode ser necessário acompanhamento psicológico, pedagógico ou médico para permitir uma retomada segura da rotina.
Os dados de Minas Gerais reforçam a dimensão do desafio. A passagem de 22,1% para 28,3% entre 2019 e 2024 indica que o bullying continua presente na experiência escolar de uma parcela relevante dos adolescentes mineiros.
Transformar esses números exige mais do que reagir aos episódios que alcançam grande repercussão. A prevenção depende de escolas capazes de identificar rapidamente situações de intimidação, famílias com canais efetivos de diálogo e políticas públicas que tratem o ambiente escolar como espaço que precisa ser seguro física e emocionalmente.
O caso registrado em Contagem coloca um rosto estatístico — preservado por ser menor de idade — em um problema que atinge milhares de estudantes. Para Minas Gerais, o crescimento do indicador reforça a necessidade de acompanhar não apenas o desempenho acadêmico, mas também as condições de convivência às quais crianças e adolescentes estão submetidos durante sua formação.

