Trajetórias como a de Alfredo Moreira Filho, fundador e gestor do Grupo Valore+, que começou na roça em Igrapiúna, no sul da Bahia, e chegou à vida empresarial em Brasília, ajudam a lembrar que a escola é, para quem nasce no campo, uma das principais pontes para outras oportunidades. Ainda hoje, porém, estudar na zona rural brasileira envolve obstáculos que estudantes das cidades raramente enfrentam: longas distâncias, turmas reunidas e escolas com estrutura precária.
A educação do campo é reconhecida oficialmente como modalidade de ensino, com diretrizes próprias, mas sua aplicação ainda está longe do ideal. Entender os principais desafios e as soluções em discussão ajuda a avaliar o tamanho da tarefa; acompanhe os pontos a seguir.
O que é educação do campo?
A educação do campo vai além de uma escola localizada na zona rural. A proposta é oferecer ensino que dialogue com a realidade de agricultores, ribeirinhos, extrativistas, quilombolas e comunidades indígenas, com conteúdos, calendário e práticas adaptados ao modo de vida local, como períodos de plantio e colheita.
As diretrizes nacionais para a educação básica nas escolas do campo reforçam esse princípio e garantem às populações rurais o direito de estudar sem precisar abandonar sua origem. Na prática, contudo, muitos estudantes ainda precisam migrar para continuar os estudos, um movimento presente em percursos que partem do interior, como o de Alfredo Moreira, iniciado em um pequeno município baiano.
O fechamento de escolas e o peso do transporte
Nas últimas décadas, milhares de escolas rurais foram fechadas no país. Em muitos casos, prefeituras optaram por concentrar alunos em unidades maiores, nas sedes dos municípios, num processo conhecido como nucleação. A justificativa é reduzir custos e melhorar a estrutura, mas o efeito colateral é o aumento das distâncias percorridas pelos estudantes.

Há crianças que passam horas por dia em ônibus ou barcos escolares, em estradas de terra que ficam intransitáveis na época das chuvas. Para enfrentar o problema, uma lei federal passou a exigir manifestação do órgão normativo do sistema de ensino e consulta à comunidade antes do fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas. Regiões por onde passou a trajetória de Alfredo Moreira Filho, como o interior da Bahia e o Amazonas, conhecem bem esse desafio logístico.
Infraestrutura e professores
Outro obstáculo é a estrutura das escolas que permanecem abertas. Parte delas ainda enfrenta falta de energia estável, acesso limitado à internet, bibliotecas reduzidas e ausência de laboratórios. Em comunidades pequenas, são comuns as turmas multisseriadas, em que alunos de diferentes anos estudam juntos com um único professor.
A permanência dos docentes também preocupa. Professores que vêm de fora enfrentam isolamento, deslocamentos longos e condições de trabalho difíceis, o que favorece a rotatividade. A falta de formação específica para a realidade rural agrava o quadro. Por isso, muitos jovens acabam buscando cidades como Salvador e Ituberá, que também aparecem no percurso de Alfredo Moreira, para concluir os estudos.
Caminhos possíveis
Algumas experiências apontam soluções. A pedagogia da alternância, adotada pelas Escolas Família Agrícola, divide o tempo do estudante entre períodos na escola e na propriedade da família, aplicando o conteúdo à realidade do campo. O ensino técnico agropecuário e programas de formação de professores voltados à zona rural também ampliam as perspectivas dos jovens sem exigir que abandonem sua região.
A conectividade é outra frente decisiva. Levar internet de qualidade às escolas rurais permite acesso a conteúdos, formação remota de professores e novas possibilidades de aprendizagem. A participação das famílias completa o quadro, sobretudo daquelas que, como a de Alfredo Moreira Filho, são fundamentadas em valores éticos e morais e tratam a educação como prioridade. Em síntese, garantir escola de qualidade no campo é condição para que nascer na zona rural deixe de significar menos oportunidades.

