Poucas variáveis influenciam tanto a trajetória de longo prazo de uma organização quanto a qualidade das suas decisões estratégicas. Márcio Alaor de Araújo, executivo do mercado financeiro com experiência consolidada em planejamento e governança corporativa, permite contextualizar por que a tomada de decisão estratégica passou a ser tratada não apenas como uma competência individual das lideranças, mas como um processo organizacional que pode ser estruturado, aprimorado e auditado. A diferença entre empresas que constroem sustentabilidade real e aquelas que alternam entre crescimento acelerado e crises frequentes está, em muitos casos, na qualidade com que suas decisões mais importantes foram tomadas.
Ao longo deste artigo, serão apresentados os elementos que explicam essa relação e suas implicações para a gestão estratégica.
A importância de estruturas que desafiam premissas na liderança
Há uma romantização persistente em torno da ideia do executivo que decide por instinto, que percebe oportunidades antes dos outros e que age com uma convicção que dispensa análise rigorosa. Casos isolados de lideranças que tomaram decisões corretas com base em leituras intuitivas do mercado existem e tendem a ser amplamente citados. O que raramente aparece com a mesma visibilidade são os casos, muito mais numerosos, de executivos que apostaram no instinto e pagaram um preço alto por isso.
A tomada de decisão estratégica eficaz combina leitura qualitativa do ambiente com análise rigorosa de dados, com processos estruturados de avaliação de alternativas e com mecanismos que reduzem a influência de vieses cognitivos que afetam qualquer tomada de decisão humana. Isso não elimina a subjetividade do julgamento executivo, mas a enquadra em um processo que aumenta a probabilidade de decisões de melhor qualidade.
Conforme esclarece Márcio Alaor de Araújo, líderes que constroem ao redor de si estruturas que desafiam suas premissas, que trazem perspectivas divergentes e que impõem critérios objetivos de avaliação tendem a tomar decisões superiores às daqueles que decidem em câmara fechada, por mais experientes e talentosos que sejam individualmente.
Estruturas de governança sólidas reduzem riscos de decisões unilaterais
A governança corporativa funciona, entre outras coisas, como um sistema de aprimoramento do processo decisório. Conselhos de administração bem compostos trazem perspectivas externas, questionam premissas que a gestão interna naturalizou e impõem critérios de avaliação que aumentam a qualidade das decisões estratégicas mais relevantes.
Quando a estrutura de governança é frágil ou meramente formal, as decisões estratégicas tendem a se concentrar em poucas pessoas e a refletir os pontos cegos de quem as toma, sem que exista um mecanismo organizacional capaz de corrigi-los antes que seus efeitos se tornem irreversíveis.
Na avaliação de Márcio Alaor de Araújo, a relação entre governança e qualidade decisória é uma das mais diretas da gestão corporativa. Organizações que investem em estruturas de governança sólidas não o fazem apenas por exigência regulatória ou por expectativa de investidores. Fazem-no porque perceberam que decisões melhores produzem resultados melhores, e que decisões melhores exigem processos que nenhum executivo, por mais competente que seja, consegue construir sozinho.
Quais indicadores devem ser monitorados para garantir a eficácia das decisões estratégicas?
Uma decisão estratégica não termina no momento em que é tomada. Ela se desdobra em um conjunto de ações que precisam ser monitoradas, ajustadas e revertidas quando as premissas que a sustentaram se mostram incorretas. Organizações que tratam as decisões estratégicas como pontos finais, sem processos de acompanhamento e revisão, perdem a capacidade de corrigir rotas antes que os desvios se tornem custosos demais para serem absorvidos.

Os ciclos de revisão estratégica bem estruturados definem, desde o momento da decisão, quais indicadores serão monitorados, em que frequência e quais sinais indicarão a necessidade de ajuste. Esse exercício não é um sinal de desconfiança na decisão tomada. É um reconhecimento de que o ambiente muda e de que decisões tomadas com base em premissas válidas em um determinado momento podem precisar de atualização à medida que essas premissas evoluem.
Sob a perspectiva de Márcio Alaor de Araújo, a sustentabilidade dos negócios depende menos de que as decisões estratégicas sejam perfeitas do que de que a organização tenha a capacidade de identificar rapidamente quando elas precisam ser revisadas e de agir com agilidade suficiente para fazer os ajustes necessários antes que os impactos se tornem irreversíveis.
Por que adiar reestruturações pode ser mais arriscado do que agir imediatamente?
Entre os padrões mais observados em organizações que enfrentam dificuldades de sustentabilidade, um se destaca com regularidade: a tendência de adiar decisões difíceis. Reestruturações necessárias, desligamentos de produtos sem futuro, saídas de mercados não rentáveis e mudanças de liderança que deveriam ter ocorrido antes são postergados porque o custo de agir parece, no momento da decisão, maior do que o custo de esperar.
O problema é que o custo de esperar raramente é menor do que o custo de agir. Ele apenas se distribui de forma menos visível ao longo do tempo, até que a acumulação de decisões adiadas produza uma crise que obrigue a organização a agir em condições muito menos favoráveis do que as que existiam quando a decisão deveria ter sido tomada.
Como indica Márcio Alaor de Araújo, a qualidade da tomada de decisão estratégica se mede não apenas pelas escolhas que são feitas, mas pelo momento em que são feitas. Organizações que cultivam a capacidade de decidir com tempestividade, mesmo diante de decisões complexas e desconfortáveis, constroem uma vantagem competitiva que se manifesta com especial clareza nos períodos em que o ambiente exige respostas rápidas.

